terça-feira, novembro 25, 2008

até ontem

Vim como quem não quer nada
E entrei na noite como se dela tivesse nascido
Até ontem não gostava das pessoas do dia
Não gostava das cores, do calor
e de tudo que se fazia de dia

Entrava na noite e nela me perdia
com os olhos fundos, a cara pálida
Encontrava gente com essa mesma cara
Às vezes muito maquiadas
E pareciam artistas de cinema-mudo
Olhava para elas como se soubesse o que faziam ali
escondidas no fundo dos bares ouvindo blues e jazz
o nariz e os olhos dançando

Reconhecia quem era da noite
e quem estava ali vindo do dia
Podia pensar que eram felizes
Suas roupas brilhavam e brilhavam seus cabelos
Falavam dos poetas góticos e dos impressionistas
dos beatniks e do cinema francês
Conheciam um bom vinho e a pior cachaça
e pensavam que podiam mudar alguma coisa
neste mundo tão pobre
e mesmo nobres
comiam pão com mortadela.

E eu vim com a noite e nela me escondia
E me encantava com a vida desse seres
E fazia parte desse mundo escuro
de pouca luz e gestos serenos

Até ontem gostava desses seres
E podia ser um deles
Mas hoje vi a luz do sol
E deixei que aquecesse minha cama fria

domingo, novembro 23, 2008

hai-kai de Kerouac

Copiei do blog do Bortolotto e transferi para cá , por motivo óbvio, um hai-kai do Kerouac:

O dia todo usando

um chapéu que não esteve

Em minha cabeça

quarta-feira, novembro 19, 2008

grande deus


Penso num poema que li, quando era pequena, de Casimiro de Abreu e que a professora obrigava a decorar:

Eu me lembro! Eu me lembro! - Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia,
E, erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca espuma para o céu sereno.

E eu disse a minha mãe nesse momento:
Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver maior que o oceano
Ou que seja mais forte do que o vento?

Minha mãe a sorrir, olhou pros céus
E respondeu: - Um ser que nós não vemos,
É maior do que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus.

Então, talvez venha daí a minha associação do mar com deus. Ou o medo que tenho do mar é o mesmo que tinha de deus. E, até hoje, quando vejo o mar ou mergulho nele me vêm esses versos na memória e procuro pedir licença sempre para entrar em suas águas . Vejo o mar como um grande deus que guarda todos os segredos dos homens e do universo. E talvez seja a coisa que mais respeito, admiro e temo no mundo.

domingo, novembro 09, 2008

galope desenfreado

a idade chega
num galope desenfreado
e eu quixote
querendo destruir moinhos
que giram espalhando o tempo
com suas pás ensandecidas
eu sem meu fiel escudeiro
o futuro nunca imaginado
presente nos olhos perdidos
e nos ombros
estranhamente pesados

domingo, novembro 02, 2008

saturno



Saturno na lente mágica
as retinas prenhas
os anéis que tu me deste
nesta noite clara
não eram de vidro
mas quebraram a monotonia
e me tornaram num segundo
a noiva do universo